quinta-feira, 15 de março de 2012

ARTIGO


MUSEUS E EDUCAÇÃO
João de Deus Vieira Barros[1]


RESUMO

O presente trabalho procura investigar em que medida os museus de um modo geral, mas em especial os museus históricos e artísticos são depositários de uma memória social e de como esse aspecto possibilita utilizá-los tanto como meio de educação não formal quanto de complemento à educação escolar. Objetiva ainda contribuir para o debate que vislumbra as relações patrimônio cultural, imaginário e educação, como subsídio à sedimentação de uma identidade coletiva.

Contemporaneidade é o presente histórico (...) no tempo físico, o presente é a mais irrelevante de todas as dimensões (...) O presente, enquanto dimensão do tempo físico é, pois, um irremediável estado de passagem (...) Contemporaneidade é a dimensão presente do tempo histórico (...) São contemporâneas coisas, pessoas, fatos, idéias, acontecimentos que fazem parte da vivência de um tempo. Quanto dura? Depende dos limites que lhes coloquemos.
Beatriz Fétizon


                 O tema desse trabalho incita-nos a uma incursão, ainda que breve, nos meandros do tempo. Não há como falar de museus e educação sem nos referirmos à temporalidade. O museu nada mais é que a tentativa humana de coagulação do tempo. O sonho humano de parar ou aprisionar o tempo está materializado nos museus.[2] Na condição de educador irei me preocupar apenas em apresentá-lo como um lugar de educação não formal, no entanto, sem perder de vista as enormes possibilidades que os museus oferecem como parceiros ou complementares da educação escolar.
                Mas o que é educação não formal? O que a diferencia da educação formal ou escolar? Para os fins da presente reflexão é suficiente apreender da educação não formal, conforme nos lembra Gohn (1999) sua atuação de forma difusa, menos sistemática e burocrática que a escolar. Não possui uma centralização unificada e institucionalizada que determina currículos e fiscalizações.
                 Enfim, a educação não formal tanto quanto a informal – essa sim, absolutamente assistemática e sem espaço e tempo pré-determinados para acontecer, estando, portanto, presente em todos os momentos e lugares das vidas das pessoas – possuem em comum o fato de acontecerem predominantemente fora dos espaços das escolas, tendo como transmissores do saber os não-professores, ou seja, agentes educativos que, em virtude do cargo,  função ou papel social que ocupam no mundo do trabalho ou na sociedade, respectivamente, tornam-se multiplicadores potenciais ou efetivos do conhecimento, ajudando a escola em sua função precípua de educar. Dentre as agências de educação não formal encontram-se cinemas, galerias de arte e museus. E entre os meios de educação informal podemos apontar, por exemplo, as tradições culturais e os esportes populares quando são praticados em praias, ruas e outros espaços informais.[3]
               Voltando à questão do tempo, para Fétizon (2006, p.164) “O presente é um irremediável estado de passagem. Só adquirirá estabilidade histórica – completa e intocável, quando se tornar passado”.

               E mais, a contemporaneidade:
            
 “É o recurso humano genial de enfeixar as três dimensões do tempo – passado, presente e futuro – num único espaço-tempo humano, irreal e imperfeito em que as três dimensões, numa larga margem temporal se tornam uma – e uma estável e significativa sede temporal de nossa vida; sede e dimensão em que vivemos e nos construímos como seres reais e realmente existentes.” (idem)
             
               Portanto, os museus de um modo geral, em especial os museus históricos, possuem uma característica única: situam-se permanentemente no tempo físico do presente, mas, contraditoriamente, almejam guardar ou aprisionar o passado histórico, já que o passado físico é irremediavelmente, passado. Contraditoriamente, também, os museus são espaços-tempo objetivamente situados na contemporaneidade e, como tal, têm possibilidade de enfeixar os três tempos: passado, presente e futuro. Em nenhum lugar somos mais convidados a antever o que virá que em um museu. O acervo dos museus, relativo a qualquer período histórico, tanto nos leva a devanear[4] sobre um tempo do qual não somos testemunhas, quanto nos convida a sonhar com um futuro. Isso nos leva mesmo a pensar em duas situações: uma que seria a possibilidade de existência de um museu somente com objetos contemporâneos. E isso parece que as denominadas feiras já realizam. Feiras de novidades eletrônicas, de utilidades domésticas, de arquitetura, de máquinas e outros utensílios. Tecnologia, sonhos e devaneios se entrelaçando[5].
                A segunda situação seria um museu de objetos futuros. O simples desejo humano já não seria, assim, a antecipação do futuro?
                 Não quero me estender demais nessas digressões. No entanto, valho-me de três exemplos: J. C. de Melo Neto, poeta pernambucano, já escreveu um livro denominado “Museu de Tudo”. De que trataria um livro de poemas com tal singularidade? Convido os presentes que desconhecem tal obra a imaginarem. O cantor e compositor Cazuza, na música “O tempo não pára”, nos brinda com os versos: “Eu vejo o futuro repetir o passado. Eu vejo um museu de grandes novidades. O tempo não pára”. Eu próprio já escrevi um texto cujo título é “Museu de Gestos” [6]. Como e onde seria tal museu?
                E tudo isso nos leva a indagar sobre uma outra concepção de museu, ademais vislumbrada por artistas[7], à margem de um pensamento científico ou de cunho eminentemente pedagógico. Um museu em que presente, passado e futuro co-existissem, privilegiando toda a produção do imaginário[8] humano. Tudo isso para além de uma crença de que “museu é lugar de coisas velhas” ou de que “lugar de velho é no museu”, como vociferam bocas inadvertidas. Em ambos os casos a revelação de duplo preconceito: tanto com os velhos (idosos), quanto com o museu enquanto espaço da memória e das realizações humanas.
                De um modo geral, como se entrelaçam museu e educação?
                Já vimos que o museu é um espaço educativo por excelência, não somente por nele encontrarmos parcela significativa da cultura material da humanidade, mas por ele ter-se tornado um lugar de encontro, por excelência. É o encontro e é pelo encontro que acontece o aprendizado: “O museu deve ser fórum, lugar de encontro, espaço de debate, um lugar em que as coisas se produzem e não apenas o já produzido e já comunicado” Como nos lembra a pesquisadora Magali Abreu[9]. Portanto, uma das importantes características do museu como espaço educativo está justamente em sua possibilidade de uso como locus de socialização e de sociabilidade. Lugar em que as pessoas se encontram não apenas para realizar visitas burocráticas, mas lugar de descoberta e, sobretudo, de auto-descoberta, visto que hoje já não é mais possível uma educação que  proporcione apenas o conhecimento, mas também, o auto-conhecimento.
                Não podemos nos esquecer de que um museu (e refiro-me especialmente aos museus históricos e artísticos) é um guardião da produção cultural, em especial, da cultura material de um povo. Portanto, lugar que proporciona ao ser um encontro com a história humana, com o passado coletivo e também com as raízes de uma identidade nacional, por conseqüência com uma identidade individual.
                Um museu há que ser um espaço em que nos encontremos conosco mesmos, com um passado e com um fazer coletivos que influenciaram a contemporaneidade. A história não é produto de uma única classe ou etnia. Os museus devem possibilitar aos que os freqüentam a chance de um encontro com nossas origens e raízes culturais, portanto simbólicas – mas que reverberam ou repercutem como imagens trans-históricas e que chegam até nós com a força viva dos acontecimentos que, vindos de um passado, de certa forma ecoam até os nossos dias.
                Dessa forma, os museus como espaços educativos devem ser capazes de possibilitar o gosto e a apreciação da cultura material e simbólica, bem como o gosto pela sua preservação e perpetuação. O gosto e capacidade de apreciação tanto do belo quanto do repugnante, pois objetos por mais que sejam ancorados em suportes da materialidade, carregam em si o peso da história e invocam realizações, tragédias e sentimentos ofuscados pelo próprio passar do tempo. Objetos de museus devem possibilitar a revivência do passado e seu prolongamento até nós.
                Vejamos o que nos diz Messentier (2005, 170), a respeito da relação memória/aprendizagem:

                                                    Como todos sabem não há aprendizagem sem memória. O processo de construção da memória social é, portanto, um elemento que contribui para o êxito de uma sociedade no equacionamento dos problemas com os quais se confronta (...).

 Ou ainda:

Para o desenvolvimento da humanidade, também foram fundamentais a escrita, a organização de bibliotecas e, seguindo nesse caminho até chegar ao computador, a criação dos mais variados tipos de suporte da memória social, porque estes instrumentos ampliaram a capacidade e aceleraram o processo de aprend1zagem social. (idem)

                E conclui esse autor que a construção da memória social é decisiva para a formação de identidades coletivas.
                 Portanto, o museu há que ser um lugar que proporcione a construção ou perpetuação/sedimentação dessa memória social, reelaborada ou relida a cada momento histórico, mas com a finalidade de ajudar a construir a identidade coletiva. E isso é um dos interesses da educação.  Tomando-se o cuidado de que essa memória, sendo nacional respeite a pluralidade, uma vez que: “o mesmo objeto patrimonial pode constituir em uma referência de diferentes identidades.” (idem, p.171)
               Por exemplo, São Luís é referência para os ludovicenses, maranhenses, brasileiros e é patrimônio mundial da humanidade.
               O autor nos lembra ainda que “o patrimônio edificado possibilita um contato coletivo da multidão anônima das cidades com referências da memória social” (idem, p.172). E é esse caráter público que favorece tendências à socialização, pois possibilita a apreensão do sentido de história por todos. (idem).
                Posso dizer que o acervo de um museu também se presta a isso.
                Para concluir esse trabalho gostaria de inserir no mesmo uma crônica[10] que publiquei há quinze anos atrás, a qual realiza uma especulação sobre um museu absolutamente imaginário. Talvez mesmo um museu de devaneios. Em que medida a educação escolar não necessita de um museu (ou museus) como o que descrevo a seguir, para que se consiga atingir uma educação formal mais afinada com os gestos da humanidade, levando o educando a perceber a grandiosidade e mesquinharia de determinados gestos humanos? Vejamos o texto, integralmente.

        “Quem nunca se traiu pelas palavras? Ou por um gesto?
           Imagino um museu diferente: de gestos. Um outro mais estranho ainda: de palavras[11]. E um outro mais impossível: de sonhos. Não sei qual seria mais efêmero.
            No Rio de Janeiro existe o `Museu do Imaginário´, resultado de estudos iniciados há décadas pela psiquiatra Nise da Silveira, a partir de trabalhos realizados por `doentes mentais´. Não deixa de ser um museu de sonhos, manifesto em forma de artes plásticas, desenhos, pinturas. A doutora Nise é uma seguidora de Jung e trabalha de há muito com a simbologia das imagens pictóricas oriundas das ditas `mentes doentias´ e o resultado é fantástico, pois muitos quadros são verdadeiras obras de arte. Aliás, arte e loucura andam muito próximas e até existe no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo cadeira com esse título: `Arte e Loucura´.
           Voltemos, então, às perguntas iniciais: `Quem nunca se traiu pelas palavras? Ou por um gesto?´.
           Tenho um museu de palavras e gestos. Quem não o tem?
           Quantas vezes fomos vítimas de uma traição por outros, através de falsas palavras ou gestos maliciosos que deram a entender a outras pessoas sobre fatos que, justamente, desejamos ocultar?
             Quem, na infância, não ouviu palavras que no mesmo instante estavam sendo desmentidas, discretamente, por um piscar de olhos da mãe para o pai ou vice-versa? Depois, dormíamos, sonhávamos e, no dia seguinte, acordávamos e quem sabe até pensássemos que tudo não passara de um sonho.
           Especulemos, agora, nosso museu de gestos.
           Como seria? Deveria, sem dúvida, haver um critério para sua formação. Primeiro teríamos que selecionar as peças desse museu, enfim, que gestos selecionar... Depois procuraríamos saber a quantidade de gestos e, finalmente, onde guardar todos esses gestos.
           Privilegiaríamos os gestos simbólicos ou os diretos? Os gestos individuais ou coletivos?
           Poderiam conviver lado a lado o gesto sublime de Cláudia[12] amamentando a filha com o gesto duro de um pai repreendendo o filho, sem nem se comover com as lágrimas que escorrem por aqueles olhos?
           Talvez fosse ideal um museu departamentalizado, não com gestos expostos aleatoriamente. Haveria a seção dos gestos simbólicos (e é tão difícil dizer qual não é) individuais e coletivos: como o do estudante oriental que se postou diante do trator na praça da `Paz Celestial´ ou o do romeiro que paga promessa carregando enorme pedra na cabeça, durante a procissão de São José de Ribamar. O primeiro simboliza a coragem; o segundo, o sacrifício, a autoflagelação, diríamos, em nome da fé.
           Haveria outras seções, como a dos gestos bruscos, dos violentos gestos, a dos gestos calmos, como o leve levantar das mãos de Hermínio[13] pedindo `bênção, meu padrinho´, nas calmas manhãs de Ribamar
           Haveria, ainda, a seção dos gestos sublimes, dos nefastos, dos negligentes...
           Deveria haver um espaço só para gestos obscenos? E um lugar só para os grandiosos gestos?
           Quem sabe houvesse uma seção para os gestos ingênuos, outra para os gestos maliciosos: aqueles que dizem e não dizem, são e não são.
           Talvez fosse necessário colecionar-se também os gestos ligados ao corpo humano. Sorrisos de todos os tipos quantos[14] não seriam? Piscares. Abrir e fechar de bocas. Mãos acenando, caindo, mãos se esfregando, acariciando, apertando o próprio corpo ou partes dele. Pernas bambas... Seriam tantos gestos. Pernas firmes, correndo, paradas.
           Esse museu seria imenso. Se resolvêssemos catalogar e colecionar esses gestos diacronicamente, então, talvez acabássemos por contar a própria história da humanidade: a história feita de gestos, de grandes e de pequenos gestos, de gestos grandiosos e mesquinhos que levaram o mundo ao que é.
           Gestos. Gestos. Gestos. A história e a própria vida resultam deles: sucessão, um puxando o outro.
           A verdade é que cada um de nós guarda um museu de gestos: somos projetor e tela. Em que espaço selecionar, catalogar e reunir tudo isso?
Só existe um: o espaço mental. Nele, individual ou coletivamente, cabem todos os gestos da humanidade. [15]


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BACHELARD, G. A poética do Devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2. ed., 2006
BARROS, J. D .V. Museu de Gestos, O Imparcial, p.4, Opinião, São Luís, 28 de julho de 1992
FÉTIZON, B. Desafios Epistemológicos e Educacionais na Contemporaneidade. Anais do II Encontro de Educadores do Maranhão, Conferência de Abertura, p.163-177, São Luís-Ma
MESENTIER, Leonardo M. Patrimônio urbano, construção da memória social e da cidadania. Revista Memória, Natal: UFRN, n.28, p. 167-177






                


[1] Professor do Departamento de Educação II e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), São Luís - Maranhão, CEP 65.000.000, e-mail joaoddeusarte@yahoo.com.br
[2] Não é objetivo deste trabalho discorrer sobre a origem e a evolução dos museus. Pretendemos tão somente fornecer alguns aspectos da relação museu e educação, apontando características do mesmo na contemporaneidade que podem torná-lo espaço de aprendizagem não formal e de complemento à educação escolar.
[3] Esse debate é bastante profícuo e poderia ser ampliado num outra ocasião. É importante perceber que em alguns momentos há uma imbricação de todas as formas de educação, sendo impossível separá-las no tempo e no espaço. Na escola, a despeito da supremacia da formalidade, a educação informal pode ocorrer, por exemplo, nos recreios, festas e rituais. A educação não formal pode acontecer dentro da escola, por exemplo, quando essa abre suas portas para a comunidade, oferecendo cursos de pequena duração, em geral, profissionalizantes.
[4] Devaneio no sentido bachelardiano, em A poética do Devaneio, como um estado feminino da alma. Sonhamos no masculino, na medida em que sonhos para o autor, são no fundo, racionalizações. Mas devaneamos no feminino, o que associa o devaneio ao repouso, aconchego. O devaneio também abre possibilidade de alteração do estado de consciência levando-nos a recriar. Enfim, uma simbiose entre memória e imaginação.
[5] Interessante notar que objetos de uma feira, fatalmente virarão objetos de museus.
[6] Texto publicado pelo jornal “O Imparcial”, de São Luís-Maranhão, em 1992. Confira-o na íntegra, ao final deste trabalho.
[7]  Refiro-me aos artistas anteriormente citados e esclareço que a presente comunicação nasce do convite realizado pelo Museu Artístico e Histórico do Maranhão para que participássemos de uma mesa redonda sobre Museu e Educação, por ocasião da Jornada Comemorativa dos 34 anos daquela instituição, no dia 27 de julho de 2007. O convite instigou-me a realizar pesquisa (ainda que breve) sobre o papel dos museus nos processos educativos formais e informais, o que resultou na elaboração do presente texto e na descoberta de que há 15 anos eu já me confrontara com o tema, ao escrever a crônica “Museu de Gestos”. Portanto, tal crônica nasce antes de nossa condição de artista, artista da palavra, pode-se dizer. Aqui se unindo a devaneios científicos. Veja-se a esse respeito nota anterior.
[8] Imaginário como sinônimo de conjunto de imagens humanas produzidas pela cultura: quer imagens materiais, concretas (objetos); quer imagens simbólicas, abstratas em suas essências. Portanto imagens constantemente atualizadas pela capacidade humana de imaginar, renovar, realizar.
[9] Na revista eletrônica do Museu da Cidade.
[10] Trata-se de “Museu de Gestos”, crônica que publique no jornal “O Imparcial”, de São Luís do Maranhão, no dia 28 de julho de 1992
[11] Importante lembrar que não faz muitos anos foi inaugurado em São Paulo, na Estação da Luz, o Museu da Língua Portuguesa que, em sua essência, é um museu de palavras. Portanto, há quinze anos, quando escrevi essa crônica, sequer imaginava que algum dia existiria no Brasil um museu de palavras.
[12] Trata-se de uma jovem mãe de São José de Ribamar - Ma, que ganhara a primeira filha, cujo gesto de amamentá-la em público, exibindo os seios, chamou-me a atenção pela sublimidade. De tal expressão.
[13] Hermínio era um deficiente mental idoso, que vivia na mesma cidade e chamava de padrinho ou madrinha a todas as pessoas que o tratavam com dignidade e respeito. Costumava compor inúmeras músicas de bumba-boi de orquestra, imitando com a boca os sons dos instrumentos de sopro.
[14] “Quanto”, na publicação anterior.
[15]  “Só existe um: o espaço mental. nele. individual ou coletivamente.cabem todos os gestos da humanidade.”, idem.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Gilbert Durand e a Teoria do Imaginário - Obras



   A teoria do Imaginário veio, ao longo dos anos, se estruturando enquanto teoria científica, cujo desenvolvimento se deve à descoberta, no século XIX, da dimensão do inconsciente humano, que permitiu a comprovação de que o psiquismo não funciona apenas à luz da percepção imediata e de um encadeamento racional de ideias, mas, também, na penumbra de um inconsciente, revelando as imagens irracionais do sonho, da neurose ou da criação poética. (DURAND, 2010)
     Assim, esta teoria vem se consolidando nos meios científicos e abrindo portas para novos conhecimentos e atuações profissionais diante de uma nova visão de homem e de mundo. 
     Aos que situam seus pensamentos num novo paradigma de construção científica e desejam conhecer mais aprofundadamente a Teoria do Imaginário, da forma como foi desenvolvida pelo francês Gilbert Durand, apresentaremos algumas de suas principais obras neste campo. 
* Referência: DURAND, Gilbert. O Imaginário: ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. 4ª ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2010.





RESUMO INFORMATIVO DA INTRODUÇÃO DO LIVRO “A IMAGINAÇÃO SIMBÓLICA” DE GILBERT DURAND
                                                                                                 
                                                                                                                                    Por Lia Fonteles*

           
O vocabulário do simbolismo
           
           
            Durand inicia sua obra fazendo alusão ao uso indiscriminado de termos relacionados ao imaginário por diversos autores devido a imensa desvalorização que sofreu a imaginação no pensamento ocidental e da Antiguidade Clássica. Ele então coloca a existência de duas maneiras que a consciência possui para representar a realidade: uma direta, na qual a própria coisa parece estar presente no espírito, como na percepção ou na simples sensação; e outra indireta, quando a coisa não pode apresentar-se de carne e osso à sensibilidade, como em recordações, imaginação de paisagens em outros planetas, etc. Nesses últimos casos, o objeto ausente é “re-presentado” na consciência por uma imagem. De outro modo, a consciência dispõe de diferentes graus de imagem, a qual pode ser a cópia fiel da sensação ou apenas assinalar a coisa. Assim, a imagem pode ter dois extremos: um constituído pela adequação total, a presença perceptiva, e outro pela inadequação mais extrema, um signo eternamente viúvo de significados, que seria o símbolo.
            O símbolo pertence à categoria do signo, porém, a maior parte dos signos, como o sinal, a palavra, a sigla, o algoritmo, são apenas subterfúgios de economia, que remetem a um significado que poderia estar presente ou ser verificado. Nada impede que tais signos sejam escolhidos arbitrariamente, a não ser que se remetam a abstrações, como a justiça e a verdade. Daí decorre a existência de alegorias, que é um signo complexo que traduz concretamente uma ideia difícil de compreender ou de exprimir de uma maneira simples. Os objetos que compõem a alegoria podem ser denominados emblemas e a narrativa acerca do signo, envolvendo exemplos de fatos mais ou menos reais ou alegóricos é o apólogo.
            Portanto, é possível verificar a existência, pelo menos em teoria, de dois tipos de signos: os arbitrários, puramente indicativos, que remetem para uma realidade puramente significada, se não presente, pelo menos sempre apresentável; e os alegóricos, que remetem a uma realidade significada dificilmente apresentável, os quais são obrigados a figurar concretamente uma parte da realidade que significam.
            Finalmente ele chega à imaginação simbólica propriamente dita, quando o significado não é de modo algum apresentado e o signo só pode referir-se a um sentido e não a uma coisa sensível. Neste momento, Durand usa as ideias Jung para definir o símbolo como “a melhor figura possível de uma coisa relativamente desconhecida que não conseguíamos designar inicialmente de uma maneira mais clara e mais característica.” Além disso, ainda  utilizando Jung, esclarece que “a diferença entre uma representação simbóloca e uma representação alegórica reside no fato de que esta última dá unicamente uma noção geral, ou uma ideia que é diferente de si mesma, enquanto a primeira é a própria ideia tornada sensível, encarnada.“ Durand complementa que o símbolo seria o inverso da alegoria, pois esta faz parte de uma ideia(abstrata) para chegar a uma figura, enquanto o símbolo é primeiro em si figura, e como tal, fonte, entre outras coisas, de ideias. O símbolo tem em sua natureza o significado inacessível, epifania, ou seja, aparece através do e no significante, do indizível.
            Assim, o domínio de predileção do simbolismo é o não-sensível sob todas as suas formas: inconsciente, metafísico, sobrenatural e surreal. Para Durand, o símbolo é a epifania de um mistério, pois é a transfiguração de uma representação concreta através de um sentido para sempre abstrato. Usando das ideias de Poul Ricoeur, o autor coloca que um símbolo autêntico possui três dimensões concretas: cósmica (ou seja, se figura no mundo visível que nos rodeia), onírica (uma vez que enraíza-se nas recordações, nos gestos que emergem nos nossos sonhos e constituem a massa muito concreta da nossa biografia mais íntima) e poética (pois o símbolo apela à linguagem). Por outro lado, a parte invisível e indizível constitui uma espécie de lógica bem à parte.
            Durand então considera a existência de um duplo imperialismo, simultaneamente do significante e do significado, na imaginação simbólica, o que marca o signo simbólico e constitui a “flexibilidade do simbolismo”, segundo Cassirer. O imperialismo do significante se dá na repetição, que chega a integrar numa única figura as qualidades mais contraditórias; e o imperialismo do significado transborda por todo o universo sensível para se manifestar, repetindo incansavelmente o ato epifânico. Assim, ambos possuem um caráter comum da redundância, sendo através do poder da repetição que o símbolo preenche indefinidamente a sua inadequação fundamental. Tal repetição é sempre aperfeiçoante.
            Neste ponto, Durand traz alguns exemplos, através de uma classificação sumária do universo simbólico: a redundância significante dos gestos constitui a classe dos símbolos rituais; a redundância das relações linguísticas é significativa do mito e dos seus derivados; já a imagem pintada, esculpida e tudo o que se poderia chamar de símbolo iconográfico, constitui múltiplas redundâncias.
            Sobre este último aspecto, Durand defende que o verdadeiro ícone é instaurador de um sentido. Há uma diferença entre o ícone e a simples imagem, que é clausura sobre si mesmo, rejeição do sentido, cópia inerte do sensível.
         Durand então finaliza esta introdução atingindo o objetivo básico de mostrar as diferenças existentes entre signo, alegoria e símbolo, abrindo, assim, o caminho para a discussão a respeito de como o desenvolvimento deste tipo de conhecimento se deu no decorrer dos anos no ocidente até os dias atuais, em que o apaziguamento entre razão e imagem possibilitou encarar a possibilidade de uma ciência e de um saber novo baseado na simbologia e o estudo as funções filosóficas do simbolismo. 
___________________________________________
* Psicóloga e Pedagoga. Aluna do Curso de Mestrado em Educação da Universidade Federal do Maranhão. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Arte, Cultura e Imaginário na Educação, da referida universidade.


Informações extraídas do livro:
No Ocidente, o imaginário, ou o museu e os processos de todas as imagens possíveis, não apenas foi considerado suspeito como reprimido durante séculos pelos valores cognitivos existentes. Atualmente, o progresso das ciências permitiu, por meio de um "efeito perverso" admirável, uma divulgação gigantesca das técnicas da imagem. Por conseguinte, todas as disciplinas universitárias colaboraram na criação de uma "ciência do imaginário", exigindo uma transferência de poder revolucionária das pedagogias, políticas e éticas...


Informações extraídas do livro:
Gilbert Durand, discípulo de Bachelard, concebeu esta obra com o objetivo de completar antropologicamente a investigação inaugurada por aquele pensador em A Psicanálise do Fogo. Ele pretendeu que seu livro fosse uma espécie de "jardim" das imagens, que ordenou e classificou, segundo uma dinâmica intrínseca, sem recorrer a critérios que lhe fossem exteriores. Esse dinamismo resulta de um trajeto antropológico que leva em conta a homologia do psíquico, do cósmico, do social e mesmo do  biológico, organizados numa significação integrada, segundo uma lógica não linear, mas constelacional. Ao estudar como funciona o Imaginário, Gilbert Durand coloca-nos no cerne das questões suscitadas pelo estruturalismo que substitui os processos temporais da explicação discursiva clássica pelos processos espaciais - topológicos. Mas, enquanto o estruturalismo de Lévi-Strauss ou de Greimas é redutor, pelo formalismo, Durand, na linha de investigadores como Jung, Piaget e Bachelard, convida-nos a pensar as estruturas do Imaginário em termos de conteúdos dinâmicos, como meio fundamental para a compreensão das bases míticas do pensamento humano. 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012


Seguem abaixo as informações acerca do IV Seminário Arte é Imaginário na Educação, que acontecerá nos dias 02, 03 e 04 de maio de 2012, na Universidade Federal do Maranhão. As inscrições devem ser realizadas através do site https://sites.google.com/site/ivseminarioaie/

IV Seminário Arte e Imaginário na Educação


             O IV Seminário Arte é Imaginário na Educação é uma realização do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMA, através do Grupo de Estudos e Pesquisas sobra Arte, Cultura e Imaginário na Educação – GSACI. No presente ano o encontro acontecerá no Auditório Central da Universidade Federal do Maranhão e em salas de aula já reservadas para as comunicações.
      O tema do presente evento é Arte, Imagem e Imaginário e pretende integrar pesquisadores do tema oriundos de vários pontos do país. Para tanto está estruturado em mesas redondas, comunicações, posters, atividades culturais – incluindo lançamento de livros e apresentações de pesquisas oriundas do próprio grupo de pesquisa proponente do seminário.
            O tema do encontro é bastante atual mormente num momento em que diversas frentes de estudos e pesusias, no campo das Ciências Humanas e Sociais, questionam a base de um paradigma da razão clássica, o qual privilegia a razão e  a técnica em detrimento da emoção, da subjetividade, da criatividade – enfim, do equilíbrio entre a razão clássica e a razão sensível, como preconiza Michel Maffesoli.
O presente encontro, portanto, se torna bastante necessário, tendo em vista a carência de maior divulgação dos esteios teóricos e metodológicos do campo do estudo da arte e do imaginário na educação, sobretudo em terras maranhense e no âmbito da Universidade Federal do Maranhão. Foram convidados pesquisadores de todo o país, com ampla experiência e produção em seus campos de estudos,  para apresentarem em conferências  e mesas redondas o resultado de suas pesquisas. São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Pernambuco, Goiás e Paraná estarão representados, além do Maranhão, sede do encontro. Todas as seções serão seguidas de debates, possibilitando maior interface entre pesquisadores, estudantes de pós-graduação e graduação, professores universitários, da educação básica, além de artistas e pessoas da comunidade interessadas no tema.
  O evento acontece de dois em dois anos, desde o ano de 2006 e sempre contou com palestrantes de pesquisadores de outros estados.

IV Seminário Arte e Imaginário na Educação



IV Seminário Arte e Imaginário na Educação



Programação

Dia 02/05/2012

8:00/12:00
 - Credenciamento e Exposição de Posters

Local: Hall do Auditório Central

12:00/14:00
 - Almoço

14:00/17:00 - Apresentação de pesquisas e trabalhos oriundos do GSACI/PPGE/UFMA

Coordenação: Prof. Dr. João de Deus Vieira Barros

17:30
 - Cerimônia de Abertura

18h - Conferência de Abertura: Arte e Imagem – As contribuições da Teoria do ImaginárioProfa. Dra. Danielle Perin Rocha Pitta (UFPE)

19:30 - Coquetel e Lançamento de Livros
Apresentação Musical: Totti e os Espiritu's.

Dia 03/05/2012

8:00 - Acolhida cultural

8:30 - Conferência 1 - Literatura, Imagem e Imaginário – reverberações na Educação

Profa. Dra. Elza Kioko do Couto (UFG)

9:30 - Debates

10:00 - Café

10:30 – Mesa Redonda 1 - Imagem, Imaginário e Educação

Profa. Dra. Marly Costa Patrão (FMU/SP) - reflexões teóricas

Prof. Dr. João de Deus Vieira Barros - aulaperformance: A imagem da mulher na musica popular brasileira

12:30/14:30 - Almoço

14:30 - Comunicações - Eixo 1

16:30 - Intervalo/Estante de livros

17:00 - Comunicações – Eixo 2

Dia 04/05/2012

8:00 - Acolhida Cultural

8:30 - Conferência 2 - Eixo: Arte, Imagem e Imaginário

Tema: Imaginário, Cultura e simbolismo: a complexidade mundializada e a arte - Prof. Dr. Edison Mercuri (UNESPAR)

9:30 - Debates

10:00 - Café

10:30 – Mesa Redonda 2 - Imagem, Imaginário e Pesquisa

Danielle Rocha Pitta (UFPE), Altair Lahud (UCB) e Iduina Mont’Alverne Chaves (UFF)

12:30/14:30 - Almoço

14:30 - Comunicações – Eixo 3

16:30 - Intervalo/Estante de Livros

17:00 - Comunicações - Eixo 4

19:00 - Encerramento - Exposição Arte para vestir - Desenhos a carvão em roupas
Artista Plástico: Uendell Rocha (São Jose de Ribamar-MA)

    Todas as atividades serão realizadas no Auditório Central da UFMA. Por se tratar de Seminário, as mesmas serão seguidas de debates. Dependendo do número de trabalhos aprovados, suas apresentações poderão ser transferidas para salas de aulas.

    Os posters (projetos de pesquisa, pesquisas iniciadas ou trabalhos de iniciação científica) e comunicações (pesquisas concluídas, relatos de experiências, artigos oriundos de pesquisas em andamento, concluídas ou de reflexo es teóricas) deverão ser direcionados a um dos eixos temáticos que serão abordados nas conferências e Mesas Redondas, a saber:


  • Eixo 1: Literatura, Imagem e Imaginário – reverberações na Educação
  • Eixo 2: Imagem, Imaginário e Educação
  • Eixo 3: Arte, Imagem e Imaginário
  • Eixo 4: Imagem, Imaginário e Pesquisa